Confira o texto na íntegra da edição de Outubro de 2016:

Missão Solidária

O exemplo de Damar e Tatiana mostra que ajudar o próximo pode ser feito por qualquer pessoa, e, em família, é muito melhor

O cotidiano familiar normalmente é atribulado. Filho para deixar na escola, acompanhar o dever de casa, monitorar se escovou os dentes, se foi dormir, se deixou de jogar vídeo game, além de dar conta do próprio trabalho, que pode se estender por horas. Achar tempo para ajudar o próximo no meio disso tudo pode parecer bem complicado. Mas não é impossível. E a experiência de uma família em Curitiba(PR) serve de inspiração para outras ao redor do Brasil. Se fazer o bem ao próximo faz bem, imaginemos o que será esse bem família?

Tudo começa há quase 20 anos, com o pai e professor de Educação Física, Damar de Cosmo Martins. “Em 1996, uma aluna me convidou para ser papai Noel numa creche. Depois desse momento, conversei com alguns alunos na Páscoa seguinte e comecei a recolher chocolates para dar às crianças. Então a primeira entrega foi justamente na Páscoa de 1997”. Observando a realidade dessas crianças, ele resolveu colocar a mão na massa: “Comecei com um clube de mães e, nos sábados, fazia com elas, aferia a pressão arterial e levava palestrantes para falar sobre maternidade e cuidados pessoais”.

Paralelo a isso, Damar fazia campanhas nas datas comemorativas, como a de Natal, Páscoa e Dia das Crianças. Ele pedia ajuda a seus próprios alunos e também à sua família, que, na época, era ele, a filha de um ano, Giovana, e a esposa, Tatiana, grávida da segunda filha, Giulia. No começo, Tatiana foi um pouco relutante, mas não levou tanto tempo para também se entregar à tarefa de ajudar o próximo: “Enquanto Damar fazia a caminhada com as mães, eu dava catequese às crianças. Ali começou um protótipo do que seria o projeto de hoje”.

Uma benção – Nesse meio tempo ainda nasceram mais duas filhas do casal e, antes de ser um problema, eram mais mãos para ajudar. Claro que nem tudo eram flores, mas as dificuldades foram, e ainda são, superadas com muita fé pelo casal. “No começo, quando eram pequenas, as meninas viam seus pais rodeados de crianças e ficavam um pouco enciumadas, mas era natural. Com o passar do tempo, elas foram crescendo e as amigas delas também acharam legal o que fazíamos e pediam que as deixássemos ajudar também. E nossas quatro meninas foram percebendo que os dons que tinham, na música, na escrita, na leitura, poderiam colocar a serviço de voluntariado do projeto. A partir dessa oferta de amor, começaram a ter a realização de fazer o bem ao próximo”, conta Damar.

Mas isso ainda não era suficiente. Era preciso fazer mais. “Começamos a perceber que aquelas crianças que mantínhamos no cadastro para dar presente no Natal, levar cestas básicas, fazer a festa de Dia das Crianças, continuavam se envolvendo com o tráfico e algumas chegavam a óbito por dívida com os traficantes. Daí nasceu em nosso coração a necessidade de poder estar no cotidiano dessas famílias, semeando valores para que as crianças fossem recolhidas das ruas”, revela Tatiana.

É assim que, em 2004, é fundada a Associação Beneficente De Mãos Unidas, com o auxílio do Dr. José Américo. Hoje, a associação possui 11 funcionários e uma média de 400 voluntários que circulam pela entidade todo ano, ajudando nos mais diversos projetos. “Temos três frentes de trabalho. As campanhas de Natal, inverno Páscoa, material escolar, que começaram no início, continuam de forma consolidada. Conseguimos atender à nossa demanda e até outras instituições e famílias. A outra frente é o atendimento de crianças de 06 a 15 anos que ficam conosco todos os dias, em atividades sócio educativas. Tomam café da manhã, almoçam, lancham, ganham todos os materiais escolares, têm atividades de inglês pela Wizard, parceira da entidade. Temos também atividades de teatro, música, expressão corporal, além das atividades escolares. E, finalmente, temos a comunidade de vida, a Mãe da Unidade, que atende os adultos, sejam colaboradores, pais das crianças atendidas, amigos e voluntários. Temos missa, novenas, atividades de aconselhamento, tudo isso voltado para o adulto”, explica Tatiana.

Roziane dos Santos é beneficiada duplamente com a associação, afinal, é uma das 11 funcionárias e trabalha na limpeza da entidade. Ela tem duas filhas, e a mais velha, de 12 anos, participa da associação e a mais nova entra no ano que vem. “O projeto é uma benção. Vejo minha filha vivendo a fé cristão, estudando a religião, procurando se encontrar com Deus e tantas iniciativas educativas. Muitas meninas da idade dela estão na rua, aprendendo coisas que não devem, e ela está aqui, aprendendo coisas boas”, afirma Roziane. Estava desempregada quando conheceu o projeto e logo colocou a filha para participar. Meses depois, para alegria ainda maior, foi contratada. Agora ela vê futuro para sua família: “Espero que minha filha se forme, e que tudo o que fizeram de bom para ela, que um dia possa fazer pelos outros também”.

Esperança cristã – Nesses 19 anos, a Associação De Mãos Unidas coleciona histórias inspiradoras. “Já tivemos muitas conversões e mudanças de vida. A mais próxima de nós, hoje é a de nossa assistente social. Ela era uma criança quando participou de um projeto pontual, um passeio. Cresceu, a contratamos como auxiliar administrativo e, dentro desse processo ela se descobriu vocacionada e pediu ingresso na comunidade. Começou a fazer Serviço Social, se formou e agora ela é responsável pela área, sendo membro da Mãe da Unidade e colocando seu dom a serviço  das crianças do projeto”, conta, feliz, Tatiana.

A entidade mantém-se com doações de pessoas físicas e jurídicas, e o trabalho de captação de recursos pertence, agora, ao Damar, que não esconde a preocupação em manter tudo funcionando: “Cada criança do projeto tem um custo. Tentamos mostrar para o empresariado essa realidade e o quanto é importante eles ajudarem. ‘ Quem colheu muito não teve sobra, e quem colheu pouco não teve falta’, é a frase lema da associação, retirada da Primeira Carta aos Contíntios. Temos um custo de quase 40 mil reais por mês. São educadores, estrutura, manutenção, funcionários e 5 mil refeições mensais”. No entanto, a esperança cristã sempre ajuda a superar dificuldades quando a preocupação chega: “O dinheiro é importante, mas quando você se entrega à Deus, você confia, reza, pede e trabalha. Nem sempre dormimos com as cabeça no travesseiro sem dor de cabeça, mas cada vez mais o amor nos move a buscar aqueles que precisam ser curados, amados, auxiliados de alguma maneira. O próprio logotipo da entidade mostra isso, é a mão de uma mãe que segura a criança. A mão é de Nossa Senhora, como se ela segurasse e levasse todos nós, seus filhos, e também de cada mãe e de cada pessoa que ajuda ao próximo. A imagem da mãe é muito forte também para as crianças do projeto”.

E a família de Damar, grande para os padrões atuais, acompanhou tudo desde o começo. A filha mais velha, hoje com 19 anos, a mesma idade da associação, ajuda com as irmãs em diversos projetos. “Sinto-me realizada como pessoa, como mulher, mãe e esposa. Deus teve trabalho para me trazer até aqui, mas eu me sinto vitoriosa. Fui vencendo as dificuldades e percebendo que o amor de Deus me acompanhou durante todo esse tempo. Hoje faço o que faço com muito orgulho. Às vezes cansada, outras preocupada em como vou pagar as contas, como vou atender todas as crianças, como está dormindo uma das minhas filhas na noite de hoje. Mas, como diz o Pe. Zezinho, scj, é uma ‘paz inquieta’. O que me define é que sou muito feliz fazendo o que faço e sendo quem sou”, diz Tatiana, olhando para trás e vendo que tudo valeu a pena.

“Precisamos sair um pouco do nosso mundo, do nosso egocentrismo, da nossa família e ir até as outras. Se eu tivesse ficado centrado só na minha família, nada disso teria surgido. Ao mesmo tempo de nada adiantaria fazer tudo isso pelo próximo e não cuidar da minha própria família, dando educação às minhas filhas e cuidando do meu casamento. Por isso é um processo de amor a que você precisa estar atento. Todos nós, leigos, somos chamados a ir ao encontro daquele que precisa, e não apenas esperar pela iniciativa de bispos e padres, precisamos também nós suscitar ações novas e inovadoras. É importante que as pessoas saiam de seu próprio mundo para ir encontrar o outro, próximo ou distante”, reflete Damar.

 

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